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Nossas escolas e universidades estão prontas para o EAD em tempos de Coronavírus?

Nossas escolas e universidades estão prontas para o EAD em tempos de Coronavírus?

É uma situação sem precedentes na história moderna, segundo educadores e economistas.

De acordo com cálculos da ONU, quase 300 milhões de estudantes em todo o mundo foram obrigados a ficar em casa porque escolas e universidades estão sendo fechadas como medida preventiva a fim de evitar a disseminação do Coronavírus.

Da mesma forma, por aqui no Brasil os governos estaduais e municipais já estão determinando a suspensão das aulas, medida também adotada por escolas e universidades particulares, o que também irá impactar milhões de estudantes brasileiros, do ensino fundamental ao doutorado.

Até meados de fevereiro, apenas os chineses estavam fora das escolas. Agora o fenômeno se estendeu para dezenas de países. Para as Nações Unidas, a velocidade e a escala global do tumulto escolar é o que torna a situação sem paralelo recente. As escolas funcionam como estrutura de apoio às famílias, comunidades e fazem parte de uma cadeia que afeta outros setores da economia. O efeito de fechá-las por dias, semanas ou meses pode gerar impactos nunca antes vistos.

"Não tenho dados a apresentar, mas não consigo lembrar de nenhuma situação na era contemporânea em que países ricos fecharam escolas em nível nacional por períodos de tempo prolongados", alerta em uma reportagem do New York Times um pesquisador do Peterson Institute for International Economics de Washington.

Se as aulas presenciais oferecem risco à saúde pública, o remédio para não deixar crianças e jovens ociosos em casa é recorrer à tecnologia, fornecendo de forma remota o que antes era feito presencialmente.

Na hora da emergência, muitos tiveram de recorrer ao improviso. O governo italiano criou um site que dá aos professores acesso a ferramentas de videoconferência e modelos de lições. Na Mongólia, as estações de TV estão passando aulas e as autoridades iranianas liberaram todo o conteúdo voltado ao público infantil na internet. 

Entre os países ricos, a Itália é um dos casos mais graves. São 60 milhões de habitantes em quarentena em todo território. Na cidade de Rovolon, no Vêneto, próximo ao epicentro da epidemia, foi criado um projeto no Facebook para não interromper totalmente o ano letivo das crianças e adolescentes.

Em Savigliano, uma professora de inglês chamada Vanessa Bertaina recorreu a videochamadas por Skype e montou grupos de WhatsApp e Telegram para manter alguma rotina escolar. Mas ela observou que vários de seus colegas têm dificuldade de manejar as tecnologias.

Vanessa toca no ponto nevrálgico: "Pessoalmente, acho que todo o processo de ensino precisa mudar e se adaptar à tecnologia. Eu acho que as coisas vão mostrar o quão importante ela é".

Por mais que essas iniciativas individuais sejam bem-vindas, é incerto o aproveitamento dos alunos com adaptações e improvisos. Em Pequim até aula de educação física se tenta dar por videoconferência.

Isso reforça a necessidade de que escolas e universidades no mundo todo avançarem mais rápido na adoção de ferramentas apropriadas ao ensino a distância, que podem ser usadas regularmente em cursos desenhados para isso, ou podem se tornar um complemento importante em momentos excepcionais como o atual.

Esse problema se apresenta até nos Estados Unidos, um dos mercados mais maduros e avançados em termos de EAD no mundo onde universidades de costa a costa estão suspendendo atividades presenciais.

Na Universidade de Washington, em Seattle, uma das cidades com mais casos de contaminação por coronavírus, a administração deixou por conta de cada professor decidir como transferir as aulas para modelos remotos. Alguns recorreram a videoconferências, outros gravaram vídeos e devem realizar provas online.

Só que para atividades que dependam de laboratório, uso de estúdios ou envolvam performances, esse tipo de medida não faz sentido. As notas vão ser atribuídas de acordo com o que os alunos fizeram até o momento do fechamento da faculdade, o que representa 80% do currículo. Isso é justo?

Brandman University, na Califórnia, vive uma realidade diferente. Cerca de 85% de seu conteúdo é transmitido online. Isso torna a adaptação bem menos traumática. Sobretudo porque a infraestrutura tecnológica já está dimensionada para tal. Até mesmo os encontros presenciais são mediados pelo sistema de e-learning. A diferença é que as "reuniões" acontecerão por meio da plataforma de videoconferência Zoom. A administração da universidade intensificou os treinamentos de seu corpo de professores na ferramenta.

Utilizar o Skype como quebra-galho é uma coisa, mas a Zoom, por exemplo, permite eventos com 500 participantes e até 10 mil espectadores. É uma diferença de escala enorme!

"Para quem não tem um LMS [sigla em inglês para Learning Management System] robusto ou cursos que já foram estruturados em uma dessas plataformas, o esforço será bem maior", prevê Jennifer Murphy, uma das diretoras do departamento de inovação educacional da Brandman.

De fato, em várias universidades americanas há uma frenética troca de informações dentro do corpo docente com instruções de como ensinar online. Especialistas de design instrucional e de tecnologia alertam, no entanto, que mover temporariamente cursos para ensino a distância é bem diferente de planejar e desenvolver um curso pensado para o meio online.

Meu filho André Pagliarini, que foi professor visitante de História da América Latina na Brown University e hoje leciona no Dartmouth College, em New Hampshire, me contou como o corpo docente está em contato com a administração para monitorar a situação e garantir a continuidade do ano acadêmico, mesmo sem ter nenhum caso confirmado na comunidade acadêmica.

Nas palavras dele: "O que essa experiência revela claramente é a necessidade de planejamento de contingência no ensino superior. Educação a distancia, nesse sentido, apresenta soluções não apenas em casos emergenciais, mas dentro de um contexto mais amplo de mudança profunda na vida acadêmica. Nós professores vamos adquirir experiência valiosa na área de ensino online. Não tenho dúvida de que a faculdade esperará de nós uma postura construtiva nessa área no futuro".

Conectividade é fundamental

Como disse no início do artigo, em volta da escola se organiza uma cadeia econômica, que vai de funcionários a agricultores que fornecem alimentos para os refeitórios. Agora, com as escolas fechadas, como os pais irão fazer?

Na Itália, as pessoas estão sendo orientadas a sequer saírem de casa. Na França, o governo prometeu garantir uma licença remunerada de 14 dias para quem precisar ficar em quarentena com os filhos.

Há países onde quem não vai trabalhar porque precisa cuidar dos filhos em casa vai ganhar menos no final do mês. Sem contar os agricultores, que terão prejuízo sem poder vender para os refeitórios das escolas.

E, claro, a crise do coronavírus não afeta apenas a vida escolar, mas todas as demais atividades. Ou seja, o home office massivo está sendo implementado na marra. As consequências econômicas e de produtividade ainda terão de ser avaliadas no futuro.

A Universidade Stanford, na Califórnia, divulgou os resultados de um estudo em 2015 que detectaram um aumento de 13% na produtividade entre funcionários de call center de uma agência de viagens chinesa. Entre as razões para o aumento de eficiência estavam ambientes de trabalho mais confortáveis e menos pausas ao longo do dia.

O home office parece a saída mais natural para proteger populações em larga escala. Especialistas apontam que uma redução das possibilidades de contágio faz com que a contaminação deixe de funcionar em progressão geométrica e se mantenha em níveis suportáveis para os sistemas de saúde nacionais.

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Gráfico mostra como as medidas protetivas como fechar escolas reduzem a velocidade de contágio da doença. Fonte: CDC/Vox

Só que para funcionar, tanto o trabalho como o ensino a distância, precisamos de conectividade. Nos Estados Unidos, essa questão pode ser pouco relevante, mas no Brasil e em muitos países afetados pelo coronavírus, trata-se de uma vulnerabilidade.

O NY Times contou a história de uma aluna em Hong Kong que se logava atrasada na aula repetidamente já durante a crise atual. Não por displiscência, mas sim porque sua conexão de internet era muito lenta. Precisamos considerar que metade dos habitantes do planeta ainda sequer tem acesso à rede mundial.

No Brasil, a população conectada atingiu a taxa de 70%, de acordo com a última pesquisa TIC Domicílios. Dos mais de 126 milhões com acesso à rede, a maioria usa apenas pelo celular. A conexão por um computador é o meio que mais tem declinado e, no sentido inverso, vêm as SmartTVs.

Só que a qualidade do serviço está longe dos melhores padrões mundiais, conforme atestou pesquisa da OpenSignal, empresa independente que recolhe dados da internet móvel mundial. O relatório avaliou o desempenho da rede de 87 países em cinco métricas: velocidade de download e upload, latência, disponibilidade 4G e vídeo.

De acordo com os resultados, o Brasil ficou longe das primeiras posições. Veja, por exemplo, a velocidade de download, que garante a rapidez no carregamento de páginas. A Coreia do Sul lidera com velocidade de 52,4 Mbps. A média mundial é de 17,6 Mbps e a do Brasil 13Mbs, no 50º lugar.

Já em disponibilidade do 4G, ficamos na 69ª posição, com penetração de 70%. Só para lembrar que em 2019 a Coreia do Sul e os Estados Unidos começaram a instalar a infraestrutura do 5G, que promete uma experiência de conexão muito superior a da quarta geração. Nosso caminho ainda é longo.

A crise causada pelo Coronavírus deixa ao mundo claramente três recados:

- A globalização que tantos benefícios trouxe, também se presta a espalhar rapidamente toda e qualquer ameaça de saúde; para se ter uma ideia, a Peste Negra, no século 14, levou alguns anos para ir da China até a Europa.

- Mesmo com iniciativas solidárias como a da Microsoft, que resolveu oferecer gratuitamente acesso à plataforma Microsoft Teams para manter empresas e escolas funcionando durante as quarentenas, há uma lição de casa a fazer: os sistemas educacionais básico, médio e superior precisam investir de forma mais substantiva em infraestrutura e tecnologia para permitir o ensino a distância, capacitando professores e até mesmo os pais para auxiliarem os estudantes em situações excepcionais.

- Para que o ensino a distância e o trabalho remoto possam se disseminar no mundo, será necessário apressar a inclusão digital e o investimento em infraestrutura de banda larga móvel para um acesso à internet que permita tarefas complexas como assistir a videoconferências sem os transtornos atuais.

(*) CEO do InterGroup Education Technology

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Arsenio Pagliarini Jr

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Co-Founder and CEO at InterGroup Education Technology

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